• Carla Lemgruber

Vilões e heróis

É como se cada um de nós vivesse dentro da história que conta para si, onde muitas vezes nos colocamos/nos vemos no lugar de vítimas, heróis ou mártires, sem reconhecermos que o vilão também foi criado por nós, também é parte de nós.

Somos todos os personagens em nossa própria história. O que reconhecemos de mal ou ruim no outro precisa existir em nós para que possa ser reconhecido por nós. Quando vemos uma verdade no outro, é por que nós também passamos por ela.

Passamos a vida elegendo heróis e vilões. Nos culpando do que não conseguimos dar ou cobrando algo que às vezes está além da capacidade dos outros. Nós mudamos e os outros não reconhecem. Eles mudam e nós não reconhecemos. Temos certezas sobre os outros e sobre nós, porque alguma vez uma situação se estabeleceu dessa forma e cada um agiu como conseguiu, foi herói e vilão dentro das suas próprias capacidades. E nessa loucura de tentar dar sentido para vida, para quem somos, formar opiniões de nós, dos outros e do mundo, acabamos acusando injustamente, cobrando infinitamente, sem “atualizar o perfil”. Pegamos a imagens antigas, e nos armamos para batalhas que talvez não precisem ser lutadas com armas, mas com a ferramenta mais difícil de todas que é a humildade. Por que ser humilde implica em aceitarmos que não damos conta de tudo, que erramos, que nem sempre conseguimos acertar. E pedir desculpas pode ser o maior trunfo, mas o mais difícil de admitir, e se conseguirmos, nossa maior vitória.

É importante que no amadurecimento aprendamos a nos defender de nós mesmos, da nossa própria tirania ou exigência. É doloroso aceitar o quanto o mundo é injusto. Aliás, umas das primeiras coisas que aprendemos numa boa terapia é que termos como justiça e merecimento só atrapalham, porque eles mostram que estamos tentando reger uma realidade complexa com leis utópicas.

Se conseguimos aceitar que cada um faz o que pode, talvez tenhamos mais chances de aceitar que nos também fizemos o que pudemos.

Por mais que do nosso ponto de vista, estejamos oferecendo o mundo, não vemos o que cobramos em troca. Em toda a nossa "humildade", corremos o risco de achar que como somos tão nobres com os outros, eles também deveriam ser com a gente, e esquecemos que não só cada um tem limitações e capacidades diferentes, temos também conceitos diferentes sobre o que é ser generoso, o que é ser amoroso, o quanto dar em um relacionamento...

Podemos passar uma vida dando "tudo" e achando que não recebemos nada em troca. Quando na verdade não deveríamos estar dando tudo, e não vemos o que vem do outro porque nosso sacrifício santo jamais se comparará ao que o outro que talvez consiga cuidar também de si e não dá tudo para nos, tem condição de fazer.

Dar e receber precisa ser para o outro e para nos mesmos. Sem vilões ou heróis. Sem totalitarismos ou utopias. Erramos. O importante é continuar tentando.

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