• Carla Lemgruber

Mudanças

É ingênuo pensarmos que sempre seremos os mesmos. Ultimamente, tenho me espantado com a dificuldade que é lidar com as mudanças e, principalmente, com as múltiplas formas pelas quais elas afetam nossa vida. Porque, geralmente, uma mudança na vida vai muito além da mudança em si; vem com ela uma serie de consequências, e só podemos ter noção da proporção delas depois de feito.

A física consegue calcular com precisão o tamanho e o número de ondas que uma pedra causará ao ser arremessada na água. Lembro-me muito dos exercícios de física e química na escola, onde pediam que uma reação fosse calculada, sempre considerando as CNTP - Condições Normais de Temperatura e Pressão. Isso me faz rir tanto hoje em dia, pois mesmo na natureza essas condições “normais” já são difíceis de existir - sempre tem um vento, uma humidade no ar ou atrito que altera essa “trajetória perfeita”. Quando saímos do mundo das coisas para o abstrato, no campo dos sentimentos e relacionamentos, essa teoria das CNTP se torna tão irreal que chega a ser cômica.

Conforme passa o tempo, a vida segue e nos coloca em situações em que somos obrigados a nos rever e tomar decisões. Até a decisão de não mudarmos frente às novas condições é uma decisão; a decisão de não mudarmos, muitas vezes nos leva a um caminho bem dolorido. Às vezes é a nossa vida que muda, o que nos desorienta, nos forçando a nos adaptar. Às vezes é a vida das pessoas à nossa volta que, ao mudar, também nos força a nos rever pois traz novas dinâmicas a esses relacionamentos, e teremos que lidar com isso de uma forma ou de outra. E se somos pessoas que tem o hábito da autorreflexão, é quase impossível não questionarmos nossa forma de ser.

As mudanças que “vem de fora”, que nos são impostas, são como um empurrão.  Nesses casos, talvez a força maior que teremos que fazer é a de nos mantermos estáticos. Essas mudanças nos ajudam ou até nos obrigam a amadurecer, pois já estão nos forçando para fora da nossa zona de conforto. Difícil mesmo são as mudanças que “vem de dentro”, que partem de um desejo ou necessidade internos - essas são as que nós queremos provocar, em busca da tão sonhada felicidade, em um esforço de ter a vida que sonhamos ou de nos tornarmos quem queremos ser.

Quando a mudança é pedida pelo lado de dentro, é preciso coragem e continuidade.

A coragem, apesar de ser uma resposta um tanto óbvia, não deve ser subestimada. Já não é fácil encararmos atravessar as inseguranças e incertezas. É como jogar aquela pedra na água, sem ter muita ideia do efeito que provocará no lago (e em nós), e não ter fórmula matemática nenhuma para calcular a trajetória, nem mesmo se houvesse as tais CNTP. E, como se não bastassem as dificuldades práticas de todas as mudanças, já que somos seres emocionais e relacionais, junto com elas vem a dificuldade de “enfrentar” as pessoas.

O amor é ao mesmo tempo refúgio e guardião. É uma fortaleza que ao mesmo tempo em que nos acolhe, é também capaz de restringir nossas ações ou nos prender em sua forma de cuidar. Também o amor sofre com as mudanças. Assumir nossa escolha ou nova forma de ser frente as pessoas que amamos não é fácil. Aqui também, se não principalmente, há que se ter coragem.

Todos resistimos à mudança, e nem todos conseguem ter uma atitude positiva ou esperançosa. Como se não bastassem os nossos próprios medos e inseguranças, as pessoas com quem dividimos nossas decisões trarão também as dúvidas e preocupações delas, especialmente quando muito próximas e queridas. E, de repente, nos vemos tendo que tentar gerenciar nossas angústias, e a delas. Quanto maior o amor, mais difícil pode ser mudar.

Ao mudarmos, geralmente surpreendemos as pessoas à nossa volta. Os relacionamentos tem suas próprias leis físico-químicas de ação e reação. De certa forma, sabemos que as pessoas com quem temos intimidade pensam “x” e “y” e, provavelmente, reagirão “assim” ou “assado”. Ou seja, trazer a mudança que queremos para nossas vidas, para o mundo real, também implica em mexer com as “leis” desses relacionamentos, que reinaram por tanto tempo em nossas vidas, e até nos ajudaram a nos estruturar como pessoa.

Se eu agir assim, se eu disser que penso desse jeito, se eu decidir isso, como as pessoas reagirão? São vários os medos, várias as pessoas e tipos de relacionamentos, e por isso há necessidades em diferentes versões e proporções de boas doses de coragem. Será que causaremos rupturas irreparáveis em determinado vínculo? Como seremos julgados por aqueles que amamos? Será que vale a pena arriscar a posição cômoda de já ser conhecido ou aceito como se é? E se não houver um sorriso ou gesto de aprovação da outra parte? Será que conseguimos suportar o desconforto do desentendimento e sustentar nossa decisão?

O negócio de “predizer” reações alheias não é dos mais confiáveis ou lucrativos. No entanto, insistimos em investir carga emocional nele. As vezes nossas predições com relação à determinada reação de alguém se confirmam, mas muitas vezes somos surpreendidos por reações diferentes das esperadas. Dizem que o stress em relação a determinados problemas é como segurar um copo d’água com o braço estendido. Segurar por 5 segundos é fácil, mas quanto mais o tempo passa, mais o copo fica pesado. E o que “não se tem coragem de dizer” creio que se encaixe nessa teoria. Quanto mais adiamos uma conversa difícil, mais imaginamos consequências catastróficas. É melhor enfrentar o mais cedo possível. Haja coragem!

E embora a coragem seja necessária para o(s) primeiro(s) passo(s), é a continuidade que solidifica a mudança. E esse é o lado menos óbvio da mudança. Isso porque acreditamos que mudamos e pronto. Logo o mundo se reajusta no novo modus operandi, as pessoas se acostumam, e a vida segue. Mas não é bem assim. Para que uma mudança se solidifique, e vá além de uma intenção ou tentativa, é preciso continuidade.

Muitos usam o termo persistência, e acho que também cabe, mas recentemente percebi que persistência dá a ilusão de algo que não para nunca, como se começássemos a apertar um botão e mantivéssemos a mesma força, ou até a intensificássemos até ver o resultado. A questão é que somos humanos. Talvez nas CNTP essa tática de força máxima e contínua funcione, mas na vida real não é assim.

Há dias em que estamos fracos, há efeitos que não havíamos previsto, erramos, às vezes nos arrependemos e depois “desarrependemos”. É preciso ter pausas, rever, redirecionar, e decidir insistir nessa mudança de novo, múltiplas vezes. Por isso hoje gosto mais da palavra continuidade, pois além de oficializar os momentos de pausa (só se continua o que já se começou e parou), ela também sugere uma certa delicadeza, essencial para “lubrificar” os atritos difíceis e dar esperança.

Como toda a história que “deu certo”, lutar para mudar algo ou a nós mesmos é isso mesmo: uma luta. Com o mundo de fora e com o mundo de dentro. Batemos e apanhamos. Conforme vamos tendo coragem para continuarmos firmes na decisão ou nova versão de nós, mais e mais a mudança se torna real.

Mudar, amadurecer, dá trabalho e dói. Ao mudar, fazemos escolhas. E toda escolha implica em perder alguma coisa, seja um hábito, um vício ou uma comodidade. Mas pelo que já vivi, hoje posso dizer que é uma dor relativamente temporária, já que é passível de ser atravessada, compartilhada, trabalhada, e transformada para ocupar um espaço menos importante, e aos poucos ir doendo menos. Se insistimos em não mudar, escolhendo ignorar o que a vida ou o coração nos pede, essa sim é uma decisão que traz a certeza de uma dor que não passará.

É impossível viver uma vida sem dor, principalmente se queremos ser felizes. Não podemos calcular todos os efeitos e consequências das nossas escolhas. Mas podemos, sim, escolher nossas lutas, escolher pelo que vale a pena sofrer, e escolher o que deixar doer para poder mudar. Não existe mudança sem escolha. Não existe escolha sem sacrifício. Não existe felicidade sem dor.

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